Clonagem de WhatsApp deixa comprador de carro no prejuízo

Os números são impressionantes. Segundo o mais recente relatório financeiro do Facebook, divulgado no início de fevereiro, o aplicativo de mensagens WhatsApp atingiu a marca mensal de nada menos do que 1,5 bilhão de usuários ativos, que trocam cerca 60 bilhões de mensagens por dia. Porém, ao mesmo tempo em que facilita o dia a dia das pessoas, a rede social tornou-se terreno fértil para os golpes, que vêm se tornando cada vez mais comuns no Brasil. O mais novo deles, registrado em várias cidades do país, inclusive em Belo Horizonte, onde ocorreram recentemente pelo menos dois casos, envolve a clonagem do número de WhatsApp de vendedores de concessionárias de veículos, que negociavam pelo aplicativo a venda de um carro novo.

De uma maneira geral, o estelionatário, após ter “invadido” o celular do funcionário e copiado as mensagens trocadas e os arquivos, entra em contato com o cliente e passa a conversar com ele como se fosse o vendedor, enviando inclusive imagens de documentos com o papel timbrado da revendedora.

Para garantir o sucesso da fraude, o falso vendedor alega que está impossibilitado de receber ligações e afirma que pelo WhatsApp eles podem conversar melhor.

Sem desconfiar, o consumidor dá prosseguimento à troca de mensagens e às negociações, sem imaginar que está prestes a cair em um golpe refinado. No fim, após a oferta de descontos imperdíveis e condições superespeciais de pagamento, o falsário consegue fechar o negócio e envia um número de conta bancária, em nome de algum “laranja”, para que seja feito o depósito da quantia acertada, seja ela uma entrada ou o pagamento total do valor do veículo. No entanto, ao se dirigir à loja para retirar o veículo, o comprador recebe a má notícia: é informado de que não foi feito nenhum depósito na conta da empresa. O prejuízo é certo, uma vez que a concessionária não pode ser responsabilizada pela fraude.

Facilidade. O delegado titular da 1ª Delegacia Especializada de Investigações de Crimes Cibernéticos (DEICC), em Belo Horizonte, Felipe Nogueira de Carvalho, admite que os crimes envolvendo a clonagem de números de WhatsApp estão se tornando cada vez mais comuns, graças à algumas facilidades e à tecnologia. “Na maioria das vezes, os estelionatários contam com a colaboração de funcionários das operadoras de telefonia móvel, que não podem ser responsabilizadas por isso”, explica ele.

Uma consumidora de Belo Horizonte, que não quis se identificar, caiu no golpe e perdeu cerca de R$ 38 mil.

Como acontece. De acordo com o delegado, para quem entende do assunto, o processo de clonagem é relativamente simples. “Normalmente, a pessoa envolvida, de dentro da operadora desabilita o número da vítima e o habilita em um novo chip. A partir daí, ela faz o download de todos os arquivos e mensagens armazenadas no chip original, que, após o processo, é habilitado novamente. Em momento algum o sistema do WhatsApp é invadido, já que sua criptografia é muito segura”, diz Carvalho. “Geralmente, a operação é feita de madrugada. Como a pessoa está dormindo, normalmente não consegue perceber que seu chip foi desabilitado por algum tempo”, acrescenta Carvalho.

Origem da ligação ajuda a identificar dono da linha usada
Em caso de clonagem de número de WhatsApp seguida de golpe (estelionato), a orientação é procurar a polícia. “Assim que descobrir, a vítima deve ir à delegacia de crimes cibernéticos ou virtuais de sua cidade para registrar a ocorrência. Caso ela não exista na localidade, a pessoa deve procurar uma delegacia comum. Em seguida, consultar um especialista para conhecer seus direitos”, explica o advogado Matheus Costa de Melo Moreira, do escritório Melo Moreira Advogados, de Belo Horizonte, especializado em direito digital.

Identificação. De acordo com ele, é fundamental que o usuário anote o número do telefone que aparece na tela do aplicativo, da pessoa que mandou a mensagem. “Dessa forma, poderemos instaurar um procedimento na Justiça para identificar junto à operadora o proprietário da linha”, afirma Moreira

Além disso, “é possível descobrir a localização física do aparelho mediante o rastreamento da antena ou através do GPS do celular”, diz o especialista, que garante que a precisão gira em torno de um quarteirão.

“Outra alternativa é pedir ao WhatsApp o endereço MAC (Media Access Control, na sigla em inglês) que identifica o celular”, diz Moreira.

Desconfie

Confirme. Para evitar problemas, o advogado dá uma dica. “Nos casos de negociações via redes sociais, confirme tudo pessoalmente. Vá à loja física, converse pelo telefone fixo”, conclui.

Verificação deve ser feita em duas etapas
Para dar mais segurança e evitar a clonagem do número do WhatsApp, o delegado titular da 1ª Delegacia Especializada de Investigações de Crimes Cibernéticos (DEICC), Felipe Nogueira de Carvalho, dá uma dica importante. “A recomendação é que seja feita a verificação de número em duas etapas. Através dela, o usuário habilita junto ao aplicativo uma senha ou código”, ensina o policial.

Ativado o recurso, todas as vezes em que o número de telefone associado ao WhatsApp precisar ser verificado, o usuário terá de inserir um código de seis dígitos criado por ele. O cliente terá também a opção de inserir um e-mail, que será usado para que o aplicativo envie um link para desativar a verificação em duas etapas caso a pessoa esqueça o PIN.

A verificação em duas etapas, disponível nas plataformas iOS e Android, já funciona em uma série de serviços conectados para dificultar acessos indevidos e, assim, ampliar a segurança a programas e aparelhos.

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